Monday, September 18, 2006

S.A.B.








“- Se eu não tivesse visto você cruzar a rua em frente a minha casa jamais teria sido infeliz”.
Foi com esta frase de efeito com que Ana despediu-se de mim às 7h33mim desta corrente data. Nem sequer me olhou nos olhos como olhara naquela ensolarada tarde de Abril. Dia 18 de Abril de 1988.
Passamos anos felizes juntos. Eu, um projeto muito bem formado de esposo ideal, sem vícios ou manias exageradas; Não fosse meu único defeito catalogar cronologicamente minha vida em horas, minutos e segundos quando assim me convinha. Já não me recordo bem quando isto começou – que ironia, só estou desconversando... Voltemos à Ana. Naquele dia ela saiu sem dar as tradicionais duas voltas na fechadura tetra da sala. Ana nem bem fechou a porta atrás de si quando saiu da minha vida.Ela com seus cabelos negros cortados na altura dos ombros, cheirando a xampu e condicionador de morango. Ana com seu perfume de mulher forte, feminina e sexy. Jamais poderei esquecer-me daquele gosto de perfume em minha boca: um misto amadeirado e alcoólico. Nem do movimento que faziam seus cabelos cada vez que Ana girava a cabeça para o outro lado. Seu jeito meigo de morder o lábio inferior quando sentia prazer ou de como me olhava nos olhos quando me escutava dizer alguma coisa. Definitivamente, Ana tinha um jeito de olhar que nenhuma mulher nunca teve ou terá na face do sistema solar. Ana era como que uma estrela que tinha mais do que brilho próprio, Ana era uma estrela destinada a ser o que nenhuma outra será: eterna. E não foi.
Também não deixará de ficar em mim aquele gosto azedo do primeiro beijo matinal dado por Ana em minha boca adormecida e amortecida por mais uma noite de beijos e juras de amor eterno.Nem aquele cheiro de café fresco que Ana passava logo que saía da cama, ainda nua, vestida com uma camisa minha qualquer. Seus pés estavam sempre descalços por qualquer cômodo que andasse em nossa casa, mesmo quando caminhava nos pedriscos que encobriam toda a área do quintal. De Ana ficará aquele vespertino jeito de menina e aquele modo noturno de ser mulher. Ficarão cicatrizes invisíveis a olho nu dos abraços, unhas e beijos que Ana deu-me em seus momentos de paixão intensa. Ficarão o formato com que Ana cortava as unhas, a cor dos esmaltes, a marca do creme dental, do biscoito, molho de tomate, sabonete, escova de dentes; ficarão as comédias românticas que não mais assistirei em consideração à memória de Ana (ou à minha própria memória de Ana?). Ficará o formato esguio e macio do corpo de Ana por sob minhas mãos, por sob meu corpo. Ficará o modo com que Ana segurava os talheres e como atendia ao telefone.A maneira como dirigia nosso carro. As caretas esquisitas que fazia quando assistindo uma novela se emocionava. Ficarão suas manias de limpeza e organização. Seu medo da morte, sua religiosidade, seus incensos, ficarão.
Ficarão os números do sapato, do jeans, da blusa. Do celular, da conta conjunta.
Não ficará a espera no banho. A companhia insubstituível na poltrona ao lado no cinema – pensando bem não haverá nem mais cinema, nem banho, nem café, nem limpeza ou organização em minha vida – simplesmente por quê não mais haverá Ana em minha vida e por si só não mais haverá eu como eu próprio me conheço. Há anos que já não me lembro como era antes de Ana em minha vida. Talvez fossem trevas como no texto bíblico, e Ana fora a luz que se fizera em meu ser. Talvez se Ana voltasse tudo seria como fora um dia. Mas sei que Ana não vai voltar. Não vai voltar por que toda a onipresença que havia de Ana em mim, não havia de mim em Ana. Ana era auto-suficiente em tudo na vida e, se viveu ao meu lado, acredito que fora muito mais por consideração do quê amor propriamente dito.
Hoje Ana acordou, olhou-me com aqueles mesmos olhos negros que me seduziam e disse: “- Se eu não tivesse visto você cruzar a rua em frente a minha casa jamais teria sido infeliz”. De Ana ficará principalmente esta frase, pois de mim não ficará mais nada. A não ser que...

Curitiba, Janeiro de 2005
* O texto é uma homenagem a Caio Fernando Abreu – que soube, com suas palavras, dizer o indizível.

Sunday, September 10, 2006

Lágrima


Sentado na varanda, esfregava sofregamente os olhos vermelhos cheios de lágrimas que escorriam pelas suas já enrugadas maçãs da face. Anos haviam passado desde a ultima vez em que se emocionara com alguma coisa. A morte não lhe causava emoção, nem, tão pouco, homenagens faziam-no corar.
Quando ela aproximou-se dele pelas costas, não pode perceber o que estava a se passar com aquele homem que há trinta e cinco meses de maio aprendera a amar e conviver... Sabia de todos os seus anseios, costumes, defeitos e qualidades. Sabia, até mesmo que reação esperar dele em cada situação que a vida pudesse os proporcionar.
Sabia como reagiria à morte dos irmãos, dos amigos, dos filhos, dos bichos de estimação quando estes se fossem. Sabia das alegrias que o faziam sorrir, gargalhar aos quatro ventos. Sabia daquele sorriso meio ao canto da boca – tímido como da primeira vez em que se conheceram. Sabia das mãos nervosas esfregando a cabeça em sinal de preocupação, geralmente financeira. Sabia do seu time do coração a vitória, ou até mesmo a derrota somente pelo jeito com que estacionava o velho e conservado Opala na garagem.
Daquele homem sabia das mentiras, das escapadas infiéis – as quais fingia não saber... Sabia do paladar, do tempo no banho, do tempero na comida e da quantidade que deixava no prato sem comer. Sabia do santo de devoção, sabia das dores corporais, mas aquilo ultrapassava qualquer entendimento possível!
Nunca o vira chorar como naquela tarde. Nem quando do enterro da mãe. E eram lágrimas que a assustavam demais! Ele soluçava e, mesmo sabendo da presença dela ali ao lado, não se preocupava em esconder o choro – justo ele que evitava qualquer demonstração de fragilidade!
Enxugava os olhos, para logo os ter novamente molhados. Levava as mãos à boca como que querendo sufocar o choro.
Ela vagarosamente se aproximou, sentou-se ao lado, o abraçou perguntando baixinho o que havia acontecido... Ele ainda com os olhos úmidos, tentando se recompor apontou para aquele objeto redondo no meio do gramado, lamentando-se há quanto tempo não via uma daquelas.
Não tardaria a vir um menininho sardento pedir o brinquedo de volta.
Ela o olharia nos olhos – os dela agora também úmidos – e diria que entendia...
Ainda haveria esperança neste mundo que um dia esqueceu de que uma lágrima não é apenas uma lágrima e, sim um rio de lembranças e dores.

p.s. Esse conto fez meu amigo Carlinhos - que quase nunca chora - chorar! Dedico a ele alguns sorrisos, então!

Friday, September 08, 2006

... e eu ainda não a conhecia!




Existem músicas capazes de nos transportar para lugares longínquos, distantes, perdidos na memória. Como numa espécie de dejá-vu.
Hoje tive essa sensação ouvindo um álbum que há muito eu procurava pelos sebos da vida: Hejira, da cantora folk canadense Joni Mitchell.
Tempos atrás eu o buscava, pois estava fascinado pela obra do saudoso Jaco Pastorius - que tocou contrabaixo, a convite de Joni Mitchell em algumas faixas de Hejira.
Hoje tive a sensação de que fiz o caminho errado; e que deveria - de alguma forma - ter ouvido Joni Mitchell em algum momento do meu passado!
Não há descrição possível a se fazer sobre sua música. Só sei que de diferentes maneiras sua arte tocou-me profundamente em lugares dentro de mim em que eu mesmo me desconheço. Se foi seu timbre de voz, sua poesia, a harmonia existente, os arranjos - não sei. Somente sei que fui transportado pra algum lugar mais bonito e que de lá não tenho mais vontade de voltar.
Pra quem se interessar, vai o link pra baixar o álbum.

http://rapidshare.de/files/15362388/Joni_Mitchell_Hejira_192.rar.html

Thursday, September 07, 2006

welcome

Entre linhas e pontos surge na contra-corrente dos blogs. Não estou preocupado com o que vai ser deste espaço, por isso não tomem-no como sendo parte integrante de mim. Vai-se levando um dia após o outro, quando houver algo legal pra se postar aqui, o farei.
Um abraço à todos que passarem por aqui e tiverem um momento legal.