Sunday, September 10, 2006

Lágrima


Sentado na varanda, esfregava sofregamente os olhos vermelhos cheios de lágrimas que escorriam pelas suas já enrugadas maçãs da face. Anos haviam passado desde a ultima vez em que se emocionara com alguma coisa. A morte não lhe causava emoção, nem, tão pouco, homenagens faziam-no corar.
Quando ela aproximou-se dele pelas costas, não pode perceber o que estava a se passar com aquele homem que há trinta e cinco meses de maio aprendera a amar e conviver... Sabia de todos os seus anseios, costumes, defeitos e qualidades. Sabia, até mesmo que reação esperar dele em cada situação que a vida pudesse os proporcionar.
Sabia como reagiria à morte dos irmãos, dos amigos, dos filhos, dos bichos de estimação quando estes se fossem. Sabia das alegrias que o faziam sorrir, gargalhar aos quatro ventos. Sabia daquele sorriso meio ao canto da boca – tímido como da primeira vez em que se conheceram. Sabia das mãos nervosas esfregando a cabeça em sinal de preocupação, geralmente financeira. Sabia do seu time do coração a vitória, ou até mesmo a derrota somente pelo jeito com que estacionava o velho e conservado Opala na garagem.
Daquele homem sabia das mentiras, das escapadas infiéis – as quais fingia não saber... Sabia do paladar, do tempo no banho, do tempero na comida e da quantidade que deixava no prato sem comer. Sabia do santo de devoção, sabia das dores corporais, mas aquilo ultrapassava qualquer entendimento possível!
Nunca o vira chorar como naquela tarde. Nem quando do enterro da mãe. E eram lágrimas que a assustavam demais! Ele soluçava e, mesmo sabendo da presença dela ali ao lado, não se preocupava em esconder o choro – justo ele que evitava qualquer demonstração de fragilidade!
Enxugava os olhos, para logo os ter novamente molhados. Levava as mãos à boca como que querendo sufocar o choro.
Ela vagarosamente se aproximou, sentou-se ao lado, o abraçou perguntando baixinho o que havia acontecido... Ele ainda com os olhos úmidos, tentando se recompor apontou para aquele objeto redondo no meio do gramado, lamentando-se há quanto tempo não via uma daquelas.
Não tardaria a vir um menininho sardento pedir o brinquedo de volta.
Ela o olharia nos olhos – os dela agora também úmidos – e diria que entendia...
Ainda haveria esperança neste mundo que um dia esqueceu de que uma lágrima não é apenas uma lágrima e, sim um rio de lembranças e dores.

p.s. Esse conto fez meu amigo Carlinhos - que quase nunca chora - chorar! Dedico a ele alguns sorrisos, então!

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