Confraria das putas
Assume o seu acento a anciã. Ela, dentre todas as presentes, é a que alcança estado mais debilitado: varizes, pelancas, peruca numa já calva cabeça, dentadura, joanete... Não mais causa enfarto aos amantes.
Pede silêncio às mais moças. Espera que a última repouse sua derriere ao acento.
Eis a inauguração de mais uma sessão solene da irmandade. A pauta versa sobre variados assuntos, na sua grande maioria problemas decorrentes da profissão.
- Não é possível, colegas! Não consigo mais comprar meias de seda a preços justos!
- E eu que já não encontro mais aquele batom vermelho sangue!
- Os espartilhos já não me cabem! Preciso mandar fazer!
- E os cigarros! E as bolsinhas! Nem no Largo encontro mais bolsinhas bonitinhas!
- Meu cafetão batia-me todos os dias e agora já não quer mais!
- E a Gazeta?! Não aceita mais os meus pseudônimos!
- Nem os comuns? Nicole, Shirley, Sabrina, Bianca?
- Nem os de santas! Maria já é manjado!
- E pipocam os anúncios procurando moças para acompanhar executivos!
- Como se acompanhar operário fosse atividade de alto nível!
E eclodem lamentos de todos os tipos.
Como é de se esperar, a anciã chama-se Joana e, é na sua casa que ocorre a sabatina. E como aqui ninguém se entende, faz se clara a expressão: casa da mãe...
- Calem a boca! Esbraveja Joana.
Todas se calam.Exceto uma, que por despeito assim sempre procede. As outras não. São por deveras educadas. Aquela é censurada a tapas. Chora, mas gosta.
Joana assume a palavra:
- O problema, minhas filhas, não é a falta de mantimentos ou os maus tratos da classe. O real e imediato impasse é de que há mais de ano nenhuma das presentes aqui atende um cliente!
Todas se entreolham tristes. Algumas choram baixinho. Joana continua:
- E tudo por causa de quê? De quem? Sim! A Culpa é das menininhas de família!
Surgem gritos de crucifica. Joana prossegue.
- Tenho constatado, o depravamento começa às noites de sextas-feiras. Dizem ir ao cinema – e realmente vão. Mas é na volta que o carro do papai do namorado transforma-se em leito fornicador...
Todas gritam:
- Vagabundas!
E os casados, queridas? Estes estão indo aos parques, às academias... Dia desses presenciei um que levou duas adolescentes pro Barigüi e babau! Nem os casados, devido à essa facilidade, vêm nos procurar. E acredito que nenhuma de nós venda-se por um Chicabom de morango.
Murmúrios. Cochichos. Uma pergunta se por dois pode, afinal é o preferido dela e tal...
Joana golpeia fortemente a mesa à sua frente. Pede ordem. Ali não é a casa delas. É a dela.
Surgem ameaças: queimar os cinemas, poluir os parques, pedir que o prefeito crie uma lei a fim de que as moças de família não saiam com o namorado sem a companhia do irmão menor, instituir missa obrigatória aos sábados à noite, fechar os motéis rotativos...
Joana diz que as idéias são boas, mas que na verdade precisam de uma estratégia de marketing, pois o mercado está competitivo. Diz que vai tentar conversar com um roteirista de televisão para surgir uma novela ambientada numa zona.
- Zona?!
Grita uma solitária voz masculina à porta.
- É aqui que é a zona? Lá de onde eu venho não tem dessas coisas não!
Todas gritam histéricas. Menos Joana, que ao chão, leva a mão ao peito.
Uma das companheiras corre ao seu socorro:
- Quer que chame um médico, Mãe Joana?
- Larga de ser besta, minha filha! Arruma as malas! Não é enfarto, é emoção!
Assim, dá-se por encerrada a sessão. Fecha-se a ata.
Abrem-se as portas.E outras coisas impronunciáveis ao horário.
Pede silêncio às mais moças. Espera que a última repouse sua derriere ao acento.
Eis a inauguração de mais uma sessão solene da irmandade. A pauta versa sobre variados assuntos, na sua grande maioria problemas decorrentes da profissão.
- Não é possível, colegas! Não consigo mais comprar meias de seda a preços justos!
- E eu que já não encontro mais aquele batom vermelho sangue!
- Os espartilhos já não me cabem! Preciso mandar fazer!
- E os cigarros! E as bolsinhas! Nem no Largo encontro mais bolsinhas bonitinhas!
- Meu cafetão batia-me todos os dias e agora já não quer mais!
- E a Gazeta?! Não aceita mais os meus pseudônimos!
- Nem os comuns? Nicole, Shirley, Sabrina, Bianca?
- Nem os de santas! Maria já é manjado!
- E pipocam os anúncios procurando moças para acompanhar executivos!
- Como se acompanhar operário fosse atividade de alto nível!
E eclodem lamentos de todos os tipos.
Como é de se esperar, a anciã chama-se Joana e, é na sua casa que ocorre a sabatina. E como aqui ninguém se entende, faz se clara a expressão: casa da mãe...
- Calem a boca! Esbraveja Joana.
Todas se calam.Exceto uma, que por despeito assim sempre procede. As outras não. São por deveras educadas. Aquela é censurada a tapas. Chora, mas gosta.
Joana assume a palavra:
- O problema, minhas filhas, não é a falta de mantimentos ou os maus tratos da classe. O real e imediato impasse é de que há mais de ano nenhuma das presentes aqui atende um cliente!
Todas se entreolham tristes. Algumas choram baixinho. Joana continua:
- E tudo por causa de quê? De quem? Sim! A Culpa é das menininhas de família!
Surgem gritos de crucifica. Joana prossegue.
- Tenho constatado, o depravamento começa às noites de sextas-feiras. Dizem ir ao cinema – e realmente vão. Mas é na volta que o carro do papai do namorado transforma-se em leito fornicador...
Todas gritam:
- Vagabundas!
E os casados, queridas? Estes estão indo aos parques, às academias... Dia desses presenciei um que levou duas adolescentes pro Barigüi e babau! Nem os casados, devido à essa facilidade, vêm nos procurar. E acredito que nenhuma de nós venda-se por um Chicabom de morango.
Murmúrios. Cochichos. Uma pergunta se por dois pode, afinal é o preferido dela e tal...
Joana golpeia fortemente a mesa à sua frente. Pede ordem. Ali não é a casa delas. É a dela.
Surgem ameaças: queimar os cinemas, poluir os parques, pedir que o prefeito crie uma lei a fim de que as moças de família não saiam com o namorado sem a companhia do irmão menor, instituir missa obrigatória aos sábados à noite, fechar os motéis rotativos...
Joana diz que as idéias são boas, mas que na verdade precisam de uma estratégia de marketing, pois o mercado está competitivo. Diz que vai tentar conversar com um roteirista de televisão para surgir uma novela ambientada numa zona.
- Zona?!
Grita uma solitária voz masculina à porta.
- É aqui que é a zona? Lá de onde eu venho não tem dessas coisas não!
Todas gritam histéricas. Menos Joana, que ao chão, leva a mão ao peito.
Uma das companheiras corre ao seu socorro:
- Quer que chame um médico, Mãe Joana?
- Larga de ser besta, minha filha! Arruma as malas! Não é enfarto, é emoção!
Assim, dá-se por encerrada a sessão. Fecha-se a ata.
Abrem-se as portas.E outras coisas impronunciáveis ao horário.

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