S.A.B.

“- Se eu não tivesse visto você cruzar a rua em frente a minha casa jamais teria sido infeliz”.
Foi com esta frase de efeito com que Ana despediu-se de mim às 7h33mim desta corrente data. Nem sequer me olhou nos olhos como olhara naquela ensolarada tarde de Abril. Dia 18 de Abril de 1988.
Passamos anos felizes juntos. Eu, um projeto muito bem formado de esposo ideal, sem vícios ou manias exageradas; Não fosse meu único defeito catalogar cronologicamente minha vida em horas, minutos e segundos quando assim me convinha. Já não me recordo bem quando isto começou – que ironia, só estou desconversando... Voltemos à Ana. Naquele dia ela saiu sem dar as tradicionais duas voltas na fechadura tetra da sala. Ana nem bem fechou a porta atrás de si quando saiu da minha vida.Ela com seus cabelos negros cortados na altura dos ombros, cheirando a xampu e condicionador de morango. Ana com seu perfume de mulher forte, feminina e sexy. Jamais poderei esquecer-me daquele gosto de perfume em minha boca: um misto amadeirado e alcoólico. Nem do movimento que faziam seus cabelos cada vez que Ana girava a cabeça para o outro lado. Seu jeito meigo de morder o lábio inferior quando sentia prazer ou de como me olhava nos olhos quando me escutava dizer alguma coisa. Definitivamente, Ana tinha um jeito de olhar que nenhuma mulher nunca teve ou terá na face do sistema solar. Ana era como que uma estrela que tinha mais do que brilho próprio, Ana era uma estrela destinada a ser o que nenhuma outra será: eterna. E não foi.
Também não deixará de ficar em mim aquele gosto azedo do primeiro beijo matinal dado por Ana em minha boca adormecida e amortecida por mais uma noite de beijos e juras de amor eterno.Nem aquele cheiro de café fresco que Ana passava logo que saía da cama, ainda nua, vestida com uma camisa minha qualquer. Seus pés estavam sempre descalços por qualquer cômodo que andasse em nossa casa, mesmo quando caminhava nos pedriscos que encobriam toda a área do quintal. De Ana ficará aquele vespertino jeito de menina e aquele modo noturno de ser mulher. Ficarão cicatrizes invisíveis a olho nu dos abraços, unhas e beijos que Ana deu-me em seus momentos de paixão intensa. Ficarão o formato com que Ana cortava as unhas, a cor dos esmaltes, a marca do creme dental, do biscoito, molho de tomate, sabonete, escova de dentes; ficarão as comédias românticas que não mais assistirei em consideração à memória de Ana (ou à minha própria memória de Ana?). Ficará o formato esguio e macio do corpo de Ana por sob minhas mãos, por sob meu corpo. Ficará o modo com que Ana segurava os talheres e como atendia ao telefone.A maneira como dirigia nosso carro. As caretas esquisitas que fazia quando assistindo uma novela se emocionava. Ficarão suas manias de limpeza e organização. Seu medo da morte, sua religiosidade, seus incensos, ficarão.
Ficarão os números do sapato, do jeans, da blusa. Do celular, da conta conjunta.
Não ficará a espera no banho. A companhia insubstituível na poltrona ao lado no cinema – pensando bem não haverá nem mais cinema, nem banho, nem café, nem limpeza ou organização em minha vida – simplesmente por quê não mais haverá Ana em minha vida e por si só não mais haverá eu como eu próprio me conheço. Há anos que já não me lembro como era antes de Ana em minha vida. Talvez fossem trevas como no texto bíblico, e Ana fora a luz que se fizera em meu ser. Talvez se Ana voltasse tudo seria como fora um dia. Mas sei que Ana não vai voltar. Não vai voltar por que toda a onipresença que havia de Ana em mim, não havia de mim em Ana. Ana era auto-suficiente em tudo na vida e, se viveu ao meu lado, acredito que fora muito mais por consideração do quê amor propriamente dito.
Hoje Ana acordou, olhou-me com aqueles mesmos olhos negros que me seduziam e disse: “- Se eu não tivesse visto você cruzar a rua em frente a minha casa jamais teria sido infeliz”. De Ana ficará principalmente esta frase, pois de mim não ficará mais nada. A não ser que...
Curitiba, Janeiro de 2005
* O texto é uma homenagem a Caio Fernando Abreu – que soube, com suas palavras, dizer o indizível.

1 Comments:
vc tem o dom de escrever,senti o q ele sentiu naquele momento....
viagei........
adorei a forma descritiva e narrativa ficou perfeito.
vou passar seu blog para um monte de amigo(a) que tambem amam literatura.
parabens!!!
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