Tuesday, January 28, 2014

1,65/55

1,65/55
          Durante algum tempo relutei em escrever esta historieta, muito por conta de não tê-la vivido, muito menos me fora contada por outrem. De qualquer maneira, é possível que deixe escorrer pela tinta alguns detalhes importantes, que o leitor possa vir me cobrar a verossimilhança. A este posso afirmar que a contei mais de uma vez a, no mínimo, quarenta pessoas e estas se deixaram envolver a contento à trama que desejo aqui desenrolar.
          Pois bem, é preciso inserir-lhe algumas personagens, duas ou três quem sabe? Assim, acredito, faço deste relato um breve momento de fantasia, sem muitas ações, sem muitos viveres para resolver.
          Esta história ocorreu nos tempos em que nossa cidade ainda mantinha aquele ar provinciano que tanto a caracterizava no meio do século passado. Em que lendas urbanas surgiam sucessivamente, levando a população a todas as maneiras comuns e esperadas de se lidar com estas coisas: desdém, rancor, chacota, sincretismo... Várias delas chegam aos dias atuais reformuladas, atualizadas - mas esta que aqui pretendo vos contar não consta em nenhum periódico da época; nem os mais boêmios souberam me dar detalhes que pudessem enriquecer a narrativa.
          Como inserida no tempo e espaço já está, tratemos, pois, das personagens (poucas, como já ficou acertado).
          Malu. Impossível descrever Malu sem fechar os olhos e lembrar dos seus: verdes! Duas esmeraldas cintilantes que, mesmo na escuridão do palco, iluminavam aquele salão inteiro. Já ia me esquecendo de dizer que Malu era dançarina, como te disse: os detalhes me fogem. Dançarina, mas a dança não importava, pois a beleza que detinha chamava muito mais a atenção, diziam.
          Seu número consistia em dar movimento ao corpo, como se dele exalassem perfumes. Seus movimentos aliados à música e à sinuosidade do ventre eram semelhantes a uma cobra. Mas o que verdadeiramente diferia Malu de tantas outras que faziam uso da dança para seu sustento é que ela, em determinado momento de sua apresentação, vagarosamente caminhava na ponta dos pés, num ritmo ainda mais febril e sensual, indo ao encontro de uma consideravelmente grande caixa de madeira. Nesta desenvolvia mais ainda a sua arte, deitando-se sobre ela, arrastando seu ventre por sobre a tampa, até que por fim, abri-a e de dentro retirava uma imensa serpente albina!
          Conforme relatos era o ápice do espetáculo, pois o que se tinha a partir daquele momento era um enlace amoroso entre a dançarina e o réptil. Enrolavam-se tanto que aos espectadores ficava difícil diferir se tudo o que presenciavam era mesmo uma dança ou um bote certeiro do animal contra a bela moça. Rolavam no chão, havia demonstrações de força e agonia, deleite, prazer, dor, desespero... Não era raro algum herói querer sair da cadeira e acudir a indefesa, pondo fim a vida da serpente, mas logo era dissuadido por algum segurança ou um frequentador costumas do lugar.
          Passados alguns minutos, findada a música lá estava Malu, deslumbrante, em sua roupa coberta de cristais e lantejoulas, com a serpente envolta em seu corpo, como que extasiada de prazer.
          Era assim, todas as quintas e sextas - no mesmo local, o mesmo repetitivo número. Que apesar do passar dos anos, não diminuía seu impacto sobre a plateia. Homens, operários em sua maioria. Não entediam de dança, muito menos da que Malu fazia. O boca a boca era forte -  fim de mês era época  de ir lá ver a gostosa que dançava com a cobra, beber umas cervejas e voltar para casa ainda ébrio, mentindo qualquer coisa que justificasse o atraso para os seus.
          Foi mais ao menos por essa época que Malu começou a perceber um comportamento estranho de sua companheira de espetáculo. Morando num quarto e sala ali perto da Riachuelo, via-se obrigada a dividir o apartamento com aquela imensa Piton albina - o que não a incomodava de forma alguma. Mas parecia a muitos, que ali havia muito mais intimidade do que se era possível ver no palco... Nada mais do que maldade da língua do povo, que incapaz de viver suas vidas medíocres, fabulava com a vida das outras. Para Malu sua cobra não passava de um animal de estimação... As pessoas não têm cães e gatos em apartamentos? Pois bem, eu tenho uma cobra! Não vejo diferença, dizia.
          Na manhã seguinte ao último espetáculo semanal, percebeu que o animal estava bastante agitado, aparentando algum mal-estar. Ofereceu-lhe algum alimento, pois fazia alguns dias a tinha alimentado. O animal nem sequer demonstrou qualquer reação. Pensou que pudesse ser algo ligado ao seu instinto de predador, demonstrando desinteresse em devorar um cadáver congelado de coelho. Buscou então, após alguns dias, hamsters vivos, uma dupla deles, a fim de aguçar o instinto de sua companheira de palcos. Todavia, novamente ocorreu o mesmo que anteriormente ocorrera.
          Naquela noite, alta madrugada, Malu percebeu que em suas pernas algo muito gelado a tocava. Acendendo o abajur, percebeu calmamente que se tratava da serpente. Um pouco assustada com aquela presença estranha em sua cama, pois há que se achar estranho uma cobra querer dormir numa cama, não?
          Levantou-se, apanhou-a, tendo o cuidado de verificar se não havia algum tipo de dor ou algum incômodo no animal, levando a imediatamente para sua caixa forrada com palha.
          Na noite seguinte, para sua consternação, novamente na cama, sentia aquele toque gélido da pele do réptil, que estranhamente encontrava-se rigorosamente esticado, partindo com a cabeça voltada para a cabeceira e o corpo todo em riste até a calda que já atingia o chão... Pensando ser algum sinal de morte eminente do animal, pois estar esticado daquela maneira, sugeriu-lhe que o mesmo estava em posição de imensa dor, levantou-se, um tanto quanto assustada, determinada a levar, assim que amanhecesse, o animal até um veterinário que pudesse examiná-lo e receitar algum medicamento que o fizesse recobrar o apetite e não apresentar este comportamento estranho.
          Na manhã seguinte, após conseguir convencer um chofer de praça a levá-la mais a serpente a uma clínica veterinária próxima, conversou com um jovem médico que estava terminando um plantão inteiro pela madrugada. O rapaz gentilmente a atendeu, afinal estava começando e entendeu aquele momento como uma oportunidade de mostrar serviços aos diretores da clínica.
          Examinou o animal, que apesar da enorme proporção e força do seu corpo parecia bastante submisso e tranquilo. Constatou-se, após exame, a ausência de febre. Também fora verificada, sem nenhum diagnóstico mais apurado, a ausência de algum agente mecânico que pudesse estar obstruindo a boca do animal.
          Sem muito conhecimento o plantonista disse poder se tratar de algum mal-estar em decorrência de alguma situação estressante pela qual pudesse ter passado o animal. Malu respondeu-lhe que até onde havia lembrança fazia mais de uma semana que não via a Piton se alimentar... e que se preocupava muito com o estado de saúde, temendo pela morte do animal.
          Sem mais o que pudessem fazer pelo animal, deram-lhe alta, recomendando que se algum comportamento estranho ocorresse novamente Malu procurasse ajuda no zoológico, uma vez que lá estariam mais capacitados em lidar com a sua serpente, por se tratar de um espécime selvagem.
          Naquela mesma noite, toda a cena do dia anterior tornara a se repetir: a cobra estava esticadinha, parecendo um imenso galho sobre a cama ao lado de sua dona. Malu, pensando se tratar de uma nova crise de dor, juntou o animal, colocando-o na caixa e prontamente ligou para uma colega da noite, que tinha um irmão veterinário. Esta deu-lhe o endereço da clínica em que o irmão trabalhava, ficava pros lados do Jardim das Américas. Pertinho, pensou. Se o taxista souber levar em dez minutos estou lá.
          Depois de alocar o animal no porta-malas, desta vez sem anunciar ao chofer a carga viva que ia naquela imensa caixa de madeira. Partiram para a clínica do tal irmão da amiga. O salafrário do taxista teve que se aproveitar e dar uma espixadinha no itinerário, só pra ganhar uns trocos a mais... Oh raça, pensou. Pagou, catou a caixa e tocou a campainha. Lá de dentro surgiu um moço, ainda com espinhas na cara e um corte tigela. Malu anunciou-se dizendo que trazia consigo um animal doente, que há dias não comia nada.
          Percebendo tratar-se de uma serpente constritora, o rapaz perguntou a dona do animal se havia ofertado presas vivas, no que obteve a resposta positiva. Pelo tato verificou novamente a ausência de febre. E passou a desenvolver um questionário padrão a fim de poder obter alguma informação que o pudesse auxiliar no diagnóstico.
          Foi quando perguntada sobre algum comportamento da serpente que lhe tivesse causado estranheza que Malu relatou a incomum presença daquela sobre sua cama, em riste da cabeceira aos pés, ao seu lado, que o jovem veterinário aos berros disse-lhe:
          - Pelo amor de Deus! Você vai dar fim ainda hoje mesmo nesta cobra! Jogue este demônio no mato!
          Malu reagiu assustada e consternada:
          - Não! Ela é minha! Danço e me apresento com ela há anos! Ela mora na minha casa...
          E o jovem rapaz tornou a gritar:
          - Você não está entendendo! Jogue fora essa cobra! Ela está te medindo, entendeu?! Medindo!
          Malu parecia não entender direito o que se passava. E o veterinário continuou:
          - Esse monstro está sem comer há duas semanas porque quer comer você! Ela está te medindo à noite pra ver se você cabe dentro dela! Ela vai se enrolar e esmagar você dormindo! Vai engolir você! Você é a presa que ela deseja, por isso não está comendo nada há dias...
          Assustada com tudo que ouvira, Malu disse não saber o que fazer. No que o rapaz prontamente lhe disse:
          - Vamos! Eu fecho a clínica e nós vamos jogar essa maldita na serra do mar... Lá ela vai achar o que comer.
          E assim se deu. Jogaram-na lá pras bandas da serra.
          Nunca mais se ouviu falar da dançarina da cobra. Alguns disseram que caiu na vida lá pros lados da Iguaçu, uma loirona com uma cobra enrolada tatuada na perna... Vai saber, esse povo fala tanta coisa.
17/01/14