Monday, December 24, 2007

Estrela-cruz

Inscrição para um portão de cemitério

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...”.
E a luz da estrela no fim!”

Mário Quintana



*

Sempre que olho para o céu sinto uma sensação de que tudo acima de minha cabeça não passa de alguns pontinhos de luz... E que a qualquer instante um desses foquinhos vai apagar, deixando a uns poucos avisados uma sensação de vazio imensurável dentro de peito ou até mesmo numa planilha aritmética.
Comentam da futura extinção do Sol, e nem sequer nos damos conta de que a todo instante, bem no alto de nossa cabeça – como imaginavam os gauleses – vários pontinhos de luz estão se apagando sem qualquer aviso possível aos nossos corriqueiros olhos, acostumados somente ao que é terreno, e que a cada dia parece-me até mesmo estarmos esquecendo de olhar com mais cuidado as coisas mínimas que nos rodeiam.
Hoje me dei conta dos poucos amigos os quais lembro o sobrenome... Daqueles que do tempo de infância malmente ficaram um esboço - como que num espelho de parque de diversões: medonho, distorcido, frágil.Como que num pesadelo em que as faces aparecem fantasmagóricas.
Há tempos não percebemos as estrelas, o sol - que são gigantes se comparados a nossa insignificância perante o universo. Quem dirá os sentimentos, os sentidos? Já nem bem mais conseguimos aceitar outra forma de amor que não seja físico, já não conseguimos cogitar fazer-se algo que não nos dê prazer. Já nem nos sensibilizamos com a dor.
Definitivamente não me preocuparia com os astros se estes não me servissem para abrir os olhos e ver o quanto inumano temos nos tornado. As estrelas têm o seu destino, e nós? Os astros têm o seu caminho traçado, e nós? Somos o que desejamos ser, ou somos mesmo um ser confuso, andando por um caminho que segue um único traçado circular, automático e vão?
Se esquecemos daqueles que por nós passam, o que somos se não nos deixamos tocar pelos mesmos? Se até mesmo os raios de sol participam da existência das sobras, o que fazemos nós para que haja claridade e sombra em nossa existência? O que deixaremos de nós nos objetos, seres e pessoas deste mundo? O que absorveremos delas enquanto vivos e posteriormente espíritos? Que histórias contaremos aos mais jovens? Que sentimentos passaremos à frente com uma dádiva de Deus?
E quando estas estrelas-gente que passam pela nossa vida apagarem, quanto de seu brilho ficará em nós? E quanto de nós terá ficado, quando num pequeno, ligeiro e finito estalo deixarmos no lugar de nosso brilho uma sombra, um aceno e nada mais? ...

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Curitiba, 04 de Outubro de 2005.
(em memória de Francisca Isabel de Jesus, minha avó falecida no dia de hoje – referência de infância e distância territorial).