Monday, April 30, 2007

Anúncio publicado nas nuvens

A quem interessar possa
Estou em cartaz
mas não há cartas endereçadas
a mim
há correios
e cachorros a correr aos carteiros
todavia minha canela seca passa desapercebida
à mandíbula feroz do Cão
ao destino incerto de um sucesso
ao aplauso, passa minha face pálida;
o meu nome escrito errado nos lugares
não reflete minha passagem pelo mundo/
a quem interessar possa
estou vendendo meus 15 minutos de privacidade

Friday, April 27, 2007

Saiu-me à Rubem Fonseca

À Ponte dos padres
Ou A tragédia curitibana de todos os dias



Sai bela, linda, cheirosa e distraída.
Pára o Opala verde, abre a porta, um trinta e dois aponta para ela.
Ele: - Entra, Fiá da Puta!
Ela: - O quê?! AAHHHhhhhh!
Seguem-se cantadas de pneu.
Ele: - Corre, véio! Pisa nessa bosta!
Outro: - Tá bom! Tá bom!
Gente olhando. Furam um sinal. Batem num Scenic.
Ele: - Pronto! Fodeu tudo! Agora essa bosta vai chamar os gambé!
Outro (abrindo a porta com arma em punho): - Vai nada! Quer ver?
Scenic: - Seu barbeiro! Olha aí, vai pagar e...
Tiro. Corpo estendido.
Outro (que volta sorrindo): - Resolvido!
Nova cantada de pneus. Param ao lado de um telefone publico.
Outro (apontando novamente arma):- Se discar 190 te faço um buraco na cachola, pau-no-cu!
Pedestre engole seco o palavrão. Deixa cair o fone.
Nova arrancada. Rumam pro Jardim das Américas.
Ela: - Quem é você? O que quer de mim? Me deixa ir!
Ele: - Cala essa boca!
Outro: - Segura essa vagabunda!
Ela, choro histérico.
Ele, gargalhada histérica.
Outro: - Ô, caralho! Qual caminho?
Ele; - Pega a 277, porra!
Ela (observando os dois: máscara de meia na cara. Roupa preta. Vozes dissimuladas): - Quem são vocês? Ai, eu vou morrer!
Seguem meia-hora.
Ele (cutucando-a com o 32): - Acorda, vagabunda!
Outro: - Deixa, assim ela cala a boca.
Ele: - Mas não é pra dormir, não! Se dormir, acorda morta! Ouviu bem? Morta!
Ela, choro histérico.
Outro: - Ai, meu Deus!
Ele:- Não fala em Deus agora, que é pecado!
Outro (escolhe uma fita e coloca no rádio): - Miles Davis é do caralho!
Ele: - È. Mas era crioulo!
Outro: - Que se foda que era crioulo! Tocava pra caralho!
Ela (sussurrando): - Ave Maria cheia de graça...
Ele: - Não reza, que é pior!
Outro: - Deixe ela!
Ele: - Deixa ela?! Esqueceu o que ela fez?
Outro, mudo, concorda com um aceno de cabeça.
Andam mais uma hora.
Ele: - Pára ali, que eu quero mijar.
Outro, se encosta na lataria e fica olhando o céu.
Ela: - Também quero!
Ele (volta e dá uma coronhada na testa dela, abrindo uma ferida vermelha): - A próxima é na boca!
Ela desmaia.
Seguem mais um pouco.
Ela (acorda grogue): - Onde que eu tô?
Surge um rosto familiar em meio a sua vista confusa.
Rosto: - Oi, amor! Que bom que você está bem! Pensei que você tinha morrido! Me assustei com esse seu machucado na sua testa...
Ela: - Você! Você! VOCÊ!
Rosto: - Sim, sou eu, amor!
Ela: - Você! Foi você!
Rosto: - Não!
Surge um outro rosto do mato.
Outro rosto: - Foi o quê?
Ela (gritando): - Vocês! Vocês que fizeram isso comigo!
Outro rosto: - Tá vendo!Eu falei que iria dar cagada!
Ele: Oh, amor! Calma! Gostou da brincadeira?
Ela: - Brincadeira? Ele matou e...
Ele:- (mentindo) Era festim, amor!
Ela (acalmando-se): Por quê tudo isso?
Ele (rindo): - Loucura de amor!
Outro: - Surpresa!
Ela (levantando-se): - Que lugar é esse?
Ele: - Não tá reconhecendo? Primeiro beijo te diz alguma coisa?
Ela: - Ponte dos Padres?! Eu não acredito!
Ele: - Pois é, pra relembrar os velhos tempos!
Outro (máquina fotográfica em punho): - Vamos lá pombinhos, que tal registrar o momento?
Caminham ao pára-peito da ponte.
Ela: - Nossa! Tinha esquecido como é alto!
Ele: - Pois é.
Outro: - Digam American Express!
Ela: - O quê?!
Um empurrão. Um corpo que cai.
Ele (observando): - Nem bóia essa bosta! Olha lá, já afundou! Que merda!
Outro: - Tchau, lazarenta! Vá gastar o cartão de crédito do diabo!
Riem histéricos.
Nova cantada de pneus.

Wednesday, April 25, 2007

Confraria das putas

Assume o seu acento a anciã. Ela, dentre todas as presentes, é a que alcança estado mais debilitado: varizes, pelancas, peruca numa já calva cabeça, dentadura, joanete... Não mais causa enfarto aos amantes.
Pede silêncio às mais moças. Espera que a última repouse sua derriere ao acento.
Eis a inauguração de mais uma sessão solene da irmandade. A pauta versa sobre variados assuntos, na sua grande maioria problemas decorrentes da profissão.
- Não é possível, colegas! Não consigo mais comprar meias de seda a preços justos!
- E eu que já não encontro mais aquele batom vermelho sangue!
- Os espartilhos já não me cabem! Preciso mandar fazer!
- E os cigarros! E as bolsinhas! Nem no Largo encontro mais bolsinhas bonitinhas!
- Meu cafetão batia-me todos os dias e agora já não quer mais!
- E a Gazeta?! Não aceita mais os meus pseudônimos!
- Nem os comuns? Nicole, Shirley, Sabrina, Bianca?
- Nem os de santas! Maria já é manjado!
- E pipocam os anúncios procurando moças para acompanhar executivos!
- Como se acompanhar operário fosse atividade de alto nível!
E eclodem lamentos de todos os tipos.
Como é de se esperar, a anciã chama-se Joana e, é na sua casa que ocorre a sabatina. E como aqui ninguém se entende, faz se clara a expressão: casa da mãe...
- Calem a boca! Esbraveja Joana.
Todas se calam.Exceto uma, que por despeito assim sempre procede. As outras não. São por deveras educadas. Aquela é censurada a tapas. Chora, mas gosta.
Joana assume a palavra:
- O problema, minhas filhas, não é a falta de mantimentos ou os maus tratos da classe. O real e imediato impasse é de que há mais de ano nenhuma das presentes aqui atende um cliente!
Todas se entreolham tristes. Algumas choram baixinho. Joana continua:
- E tudo por causa de quê? De quem? Sim! A Culpa é das menininhas de família!
Surgem gritos de crucifica. Joana prossegue.
- Tenho constatado, o depravamento começa às noites de sextas-feiras. Dizem ir ao cinema – e realmente vão. Mas é na volta que o carro do papai do namorado transforma-se em leito fornicador...
Todas gritam:
- Vagabundas!
E os casados, queridas? Estes estão indo aos parques, às academias... Dia desses presenciei um que levou duas adolescentes pro Barigüi e babau! Nem os casados, devido à essa facilidade, vêm nos procurar. E acredito que nenhuma de nós venda-se por um Chicabom de morango.
Murmúrios. Cochichos. Uma pergunta se por dois pode, afinal é o preferido dela e tal...
Joana golpeia fortemente a mesa à sua frente. Pede ordem. Ali não é a casa delas. É a dela.
Surgem ameaças: queimar os cinemas, poluir os parques, pedir que o prefeito crie uma lei a fim de que as moças de família não saiam com o namorado sem a companhia do irmão menor, instituir missa obrigatória aos sábados à noite, fechar os motéis rotativos...
Joana diz que as idéias são boas, mas que na verdade precisam de uma estratégia de marketing, pois o mercado está competitivo. Diz que vai tentar conversar com um roteirista de televisão para surgir uma novela ambientada numa zona.
- Zona?!
Grita uma solitária voz masculina à porta.
- É aqui que é a zona? Lá de onde eu venho não tem dessas coisas não!
Todas gritam histéricas. Menos Joana, que ao chão, leva a mão ao peito.
Uma das companheiras corre ao seu socorro:
- Quer que chame um médico, Mãe Joana?
- Larga de ser besta, minha filha! Arruma as malas! Não é enfarto, é emoção!
Assim, dá-se por encerrada a sessão. Fecha-se a ata.
Abrem-se as portas.E outras coisas impronunciáveis ao horário.

Interblogs

A idéia partiu da minha amiga-irmã na terra Karina Quadrado, então ela que é mais dada aos detalhes pode explicar melhor o conceito que permeia essa intertextualidade a que nos estamos propondo iniciar com os contos S.A.B e S.A.B II (um requien). Espero poder colher bons frutos dessa parceria e que quem possa nos vir a ler sinta também vontade de opinar e se possível escrever e interblogar conosco.
O link pra entender o que se passa na cabeça da Karina é: http://kaquadrado.blogspot.com/ e pra entender a minha vais ficando por aqui mesmo!
Um grande abraço!