Monday, March 12, 2007

Você volta outra pessoa (trilogia do abandono, part. II)

Você volta outra pessoa

Ela olhava aquele homem em pé à sua frente, sem poder acreditar. Realmente! Ele estava outra pessoa... Cabelos e barba aparados. Sorriso com hálito de menta. Camisa por dentro da calça, cinta - veja só você! Combinando com os sapatos. Colônia! Ela mal podia, mal conseguia acreditar no que seu olfato revelava.
Não sabia se feliz, se assustada. Ou se beijava, ou se saía correndo acender um maço de velas pra São Benedito.Disse somente: Entra, João. E ele entrou.
O que se deu daquele dia em diante fora um novo lar, uma casa diferente daquela a que Lurdes tanto pedira ao Santo para lhe livrar. O companheiro tornara-se, finalmente, aquele homem a quem ela há muito pedira a Deus.
A João não havia dia ruim: acordava cedo, passava o café, tomava seu esmerado banho, beijava-a ao portão e saía para trabalhar. Voltava às seis, algumas vezes com flores, outras chocolates e não quando beijos e abraços enamorados. Era um anjo na terra. Bondade divina em coração humano.
Não tinham filhos – a natureza não pudera presentear Lurdes com tanta alegria. O que não era motivo de queixa, pois seu João a amava o suficiente. E como a amava!
À noite, em meio aos lençóis era um amante fogoso o seu João, e ela adormecia em seus braços, suspirando baixinho e lembrando daquele dia em que lera num outdoor sobre um sítio nas localidades, que dentre todas as suas atrações, prometia, passada a estadia, fazer de seus hóspedes uma outra pessoa. Ah! E de João havia sido feita, realmente, outra pessoa.
Quem o via custava a acreditar que aquele fora o mesmo João Cachaça de tempos atrás. Agora, não. Ele era somente o João da Lurdes. Só da Lurdes.
Inesperadamente, Lurdes foi enjoando daquilo tudo. E lá no fundo sentia um pouco de falta daquele João machão que tinha dentro de casa. Que dava murro na mesa, chutava cachorro no terreiro, cuspia no ladrilho e cheirava suor no sovaco e Oncinha no peito da camisa.
Um dia, sem mais nem menos, concluiu que João havia, de certa forma, se tornado um frouxo. Um homem honesto demais, paciente e certinho demais. E Lurdes pôs-se a querer aquele João-sem-vergonha que dava tapas nas cadeiras e a chamava de Minha Nêga.
O tal do meu amor enjoava. E enjoou.
Lurdes passou a não mais cuidar da casa: deixava louça da janta na pia, vassoura nem tocava o assoalho. Faltava ao banho, à cabeleireira e às novenas. Rogava praga dentro de casa e na cama pedia a João que a chamasse de rameira. Mas ele não. Chorava e saía da cama para dormir no sofá.
Lurdes dera a beber, fumar e a se oferecer aos homens na rua.
João dera a chorar, rezar e a se esconder. Lavava a casa, cozinhava e cuidava aos caprichos da mulher.
Ela cuspia no terreiro, sentava no ladrilho e beijava na boca o cão.
João foi desacorçoando, até que um dia enforcou-se no limoeiro detrás da casa.
Lurdes, perdida na vida, vendeu a casa, as tralhas e passou a vagar pelas ruas. Certo dia fora vista dormindo embaixo de uma marquise, de onde era possível ver - em meio a propagandas de cigarro, cervejas, motéis - um outdoor que anunciava num desgastado papel: Você volta outra pes...
Mas já não era possível ler a frase inteira.
Já não era mais possível voltar outra pes...