Tuesday, January 28, 2014

1,65/55

1,65/55
          Durante algum tempo relutei em escrever esta historieta, muito por conta de não tê-la vivido, muito menos me fora contada por outrem. De qualquer maneira, é possível que deixe escorrer pela tinta alguns detalhes importantes, que o leitor possa vir me cobrar a verossimilhança. A este posso afirmar que a contei mais de uma vez a, no mínimo, quarenta pessoas e estas se deixaram envolver a contento à trama que desejo aqui desenrolar.
          Pois bem, é preciso inserir-lhe algumas personagens, duas ou três quem sabe? Assim, acredito, faço deste relato um breve momento de fantasia, sem muitas ações, sem muitos viveres para resolver.
          Esta história ocorreu nos tempos em que nossa cidade ainda mantinha aquele ar provinciano que tanto a caracterizava no meio do século passado. Em que lendas urbanas surgiam sucessivamente, levando a população a todas as maneiras comuns e esperadas de se lidar com estas coisas: desdém, rancor, chacota, sincretismo... Várias delas chegam aos dias atuais reformuladas, atualizadas - mas esta que aqui pretendo vos contar não consta em nenhum periódico da época; nem os mais boêmios souberam me dar detalhes que pudessem enriquecer a narrativa.
          Como inserida no tempo e espaço já está, tratemos, pois, das personagens (poucas, como já ficou acertado).
          Malu. Impossível descrever Malu sem fechar os olhos e lembrar dos seus: verdes! Duas esmeraldas cintilantes que, mesmo na escuridão do palco, iluminavam aquele salão inteiro. Já ia me esquecendo de dizer que Malu era dançarina, como te disse: os detalhes me fogem. Dançarina, mas a dança não importava, pois a beleza que detinha chamava muito mais a atenção, diziam.
          Seu número consistia em dar movimento ao corpo, como se dele exalassem perfumes. Seus movimentos aliados à música e à sinuosidade do ventre eram semelhantes a uma cobra. Mas o que verdadeiramente diferia Malu de tantas outras que faziam uso da dança para seu sustento é que ela, em determinado momento de sua apresentação, vagarosamente caminhava na ponta dos pés, num ritmo ainda mais febril e sensual, indo ao encontro de uma consideravelmente grande caixa de madeira. Nesta desenvolvia mais ainda a sua arte, deitando-se sobre ela, arrastando seu ventre por sobre a tampa, até que por fim, abri-a e de dentro retirava uma imensa serpente albina!
          Conforme relatos era o ápice do espetáculo, pois o que se tinha a partir daquele momento era um enlace amoroso entre a dançarina e o réptil. Enrolavam-se tanto que aos espectadores ficava difícil diferir se tudo o que presenciavam era mesmo uma dança ou um bote certeiro do animal contra a bela moça. Rolavam no chão, havia demonstrações de força e agonia, deleite, prazer, dor, desespero... Não era raro algum herói querer sair da cadeira e acudir a indefesa, pondo fim a vida da serpente, mas logo era dissuadido por algum segurança ou um frequentador costumas do lugar.
          Passados alguns minutos, findada a música lá estava Malu, deslumbrante, em sua roupa coberta de cristais e lantejoulas, com a serpente envolta em seu corpo, como que extasiada de prazer.
          Era assim, todas as quintas e sextas - no mesmo local, o mesmo repetitivo número. Que apesar do passar dos anos, não diminuía seu impacto sobre a plateia. Homens, operários em sua maioria. Não entediam de dança, muito menos da que Malu fazia. O boca a boca era forte -  fim de mês era época  de ir lá ver a gostosa que dançava com a cobra, beber umas cervejas e voltar para casa ainda ébrio, mentindo qualquer coisa que justificasse o atraso para os seus.
          Foi mais ao menos por essa época que Malu começou a perceber um comportamento estranho de sua companheira de espetáculo. Morando num quarto e sala ali perto da Riachuelo, via-se obrigada a dividir o apartamento com aquela imensa Piton albina - o que não a incomodava de forma alguma. Mas parecia a muitos, que ali havia muito mais intimidade do que se era possível ver no palco... Nada mais do que maldade da língua do povo, que incapaz de viver suas vidas medíocres, fabulava com a vida das outras. Para Malu sua cobra não passava de um animal de estimação... As pessoas não têm cães e gatos em apartamentos? Pois bem, eu tenho uma cobra! Não vejo diferença, dizia.
          Na manhã seguinte ao último espetáculo semanal, percebeu que o animal estava bastante agitado, aparentando algum mal-estar. Ofereceu-lhe algum alimento, pois fazia alguns dias a tinha alimentado. O animal nem sequer demonstrou qualquer reação. Pensou que pudesse ser algo ligado ao seu instinto de predador, demonstrando desinteresse em devorar um cadáver congelado de coelho. Buscou então, após alguns dias, hamsters vivos, uma dupla deles, a fim de aguçar o instinto de sua companheira de palcos. Todavia, novamente ocorreu o mesmo que anteriormente ocorrera.
          Naquela noite, alta madrugada, Malu percebeu que em suas pernas algo muito gelado a tocava. Acendendo o abajur, percebeu calmamente que se tratava da serpente. Um pouco assustada com aquela presença estranha em sua cama, pois há que se achar estranho uma cobra querer dormir numa cama, não?
          Levantou-se, apanhou-a, tendo o cuidado de verificar se não havia algum tipo de dor ou algum incômodo no animal, levando a imediatamente para sua caixa forrada com palha.
          Na noite seguinte, para sua consternação, novamente na cama, sentia aquele toque gélido da pele do réptil, que estranhamente encontrava-se rigorosamente esticado, partindo com a cabeça voltada para a cabeceira e o corpo todo em riste até a calda que já atingia o chão... Pensando ser algum sinal de morte eminente do animal, pois estar esticado daquela maneira, sugeriu-lhe que o mesmo estava em posição de imensa dor, levantou-se, um tanto quanto assustada, determinada a levar, assim que amanhecesse, o animal até um veterinário que pudesse examiná-lo e receitar algum medicamento que o fizesse recobrar o apetite e não apresentar este comportamento estranho.
          Na manhã seguinte, após conseguir convencer um chofer de praça a levá-la mais a serpente a uma clínica veterinária próxima, conversou com um jovem médico que estava terminando um plantão inteiro pela madrugada. O rapaz gentilmente a atendeu, afinal estava começando e entendeu aquele momento como uma oportunidade de mostrar serviços aos diretores da clínica.
          Examinou o animal, que apesar da enorme proporção e força do seu corpo parecia bastante submisso e tranquilo. Constatou-se, após exame, a ausência de febre. Também fora verificada, sem nenhum diagnóstico mais apurado, a ausência de algum agente mecânico que pudesse estar obstruindo a boca do animal.
          Sem muito conhecimento o plantonista disse poder se tratar de algum mal-estar em decorrência de alguma situação estressante pela qual pudesse ter passado o animal. Malu respondeu-lhe que até onde havia lembrança fazia mais de uma semana que não via a Piton se alimentar... e que se preocupava muito com o estado de saúde, temendo pela morte do animal.
          Sem mais o que pudessem fazer pelo animal, deram-lhe alta, recomendando que se algum comportamento estranho ocorresse novamente Malu procurasse ajuda no zoológico, uma vez que lá estariam mais capacitados em lidar com a sua serpente, por se tratar de um espécime selvagem.
          Naquela mesma noite, toda a cena do dia anterior tornara a se repetir: a cobra estava esticadinha, parecendo um imenso galho sobre a cama ao lado de sua dona. Malu, pensando se tratar de uma nova crise de dor, juntou o animal, colocando-o na caixa e prontamente ligou para uma colega da noite, que tinha um irmão veterinário. Esta deu-lhe o endereço da clínica em que o irmão trabalhava, ficava pros lados do Jardim das Américas. Pertinho, pensou. Se o taxista souber levar em dez minutos estou lá.
          Depois de alocar o animal no porta-malas, desta vez sem anunciar ao chofer a carga viva que ia naquela imensa caixa de madeira. Partiram para a clínica do tal irmão da amiga. O salafrário do taxista teve que se aproveitar e dar uma espixadinha no itinerário, só pra ganhar uns trocos a mais... Oh raça, pensou. Pagou, catou a caixa e tocou a campainha. Lá de dentro surgiu um moço, ainda com espinhas na cara e um corte tigela. Malu anunciou-se dizendo que trazia consigo um animal doente, que há dias não comia nada.
          Percebendo tratar-se de uma serpente constritora, o rapaz perguntou a dona do animal se havia ofertado presas vivas, no que obteve a resposta positiva. Pelo tato verificou novamente a ausência de febre. E passou a desenvolver um questionário padrão a fim de poder obter alguma informação que o pudesse auxiliar no diagnóstico.
          Foi quando perguntada sobre algum comportamento da serpente que lhe tivesse causado estranheza que Malu relatou a incomum presença daquela sobre sua cama, em riste da cabeceira aos pés, ao seu lado, que o jovem veterinário aos berros disse-lhe:
          - Pelo amor de Deus! Você vai dar fim ainda hoje mesmo nesta cobra! Jogue este demônio no mato!
          Malu reagiu assustada e consternada:
          - Não! Ela é minha! Danço e me apresento com ela há anos! Ela mora na minha casa...
          E o jovem rapaz tornou a gritar:
          - Você não está entendendo! Jogue fora essa cobra! Ela está te medindo, entendeu?! Medindo!
          Malu parecia não entender direito o que se passava. E o veterinário continuou:
          - Esse monstro está sem comer há duas semanas porque quer comer você! Ela está te medindo à noite pra ver se você cabe dentro dela! Ela vai se enrolar e esmagar você dormindo! Vai engolir você! Você é a presa que ela deseja, por isso não está comendo nada há dias...
          Assustada com tudo que ouvira, Malu disse não saber o que fazer. No que o rapaz prontamente lhe disse:
          - Vamos! Eu fecho a clínica e nós vamos jogar essa maldita na serra do mar... Lá ela vai achar o que comer.
          E assim se deu. Jogaram-na lá pras bandas da serra.
          Nunca mais se ouviu falar da dançarina da cobra. Alguns disseram que caiu na vida lá pros lados da Iguaçu, uma loirona com uma cobra enrolada tatuada na perna... Vai saber, esse povo fala tanta coisa.
17/01/14



         
         


Thursday, April 10, 2008

“ quando minhas mãos tocam em você”

Por Márcio Pereira Ribeiro

Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...
Mário Quintana


Se todas as esperas na vida fossem recompensadas com a beleza de um primeiro momento...
Aquela sensação de que uma pequena parcela de uma grande expectativa foi nos recompensada por uma verdadeira prova de que existem maneiras, sim, de se fazer arte de qualidade sem extrapolar o comprometimento do que, na verdade deveria ser a viés de qualquer artista: criatividade, bom gosto, inovação e sentimentalismo. E qual não me foi a surpresa, quando no meio de tantas informações que permeiam a Grande Rede, encontrei uma banda curitibana, que dentro de um parâmetro de muita qualidade sonora e de uma busca por inovação no que eu vinha escutando, descobri O Som das Nuvens e, como que num lampejo de espanto, dei por conta de que ali havia uma intenção muito interessante em se fazer arte, e por alguns meses pus-me a acompanhar às gravações bem à distância - como bom curitibano, com sangue mineiro, que sou.
Eis que me chega a notícia de que a obra de arte estava pronta, como quando na verdade, é sabido que estas são inacabáveis, e sim, como na concepção de todos os artistas: abandonadas para seguir o seu caminho. Chega um ponto em que se torna humanamente impossível continuar a esmerilhar, a trabalhar uma jóia – corre-se até o risco de estragá-la com tanto zelo (amor demais às vezes sufoca!).
Agora com o álbum branco (assim batizado por mim, numa referência ao White Álbum dos garotos de Liverpool – referências sonora pra mim, e pra ¾ do Ocidente) em mãos...Eis minhas impressões sobre a obra. Espero estar à altura de tal façanha. Façamos faixa a faixa, assim (quem sabe) o deleite seja-nos mais prazeroso... Hora de apertar o play e curtir o som, pois.
“despertar” faixa instrumental que abre o álbum, conta com sons percussivos de contrabaixo e percussão que remetem à dança de capoeira; há também melodias de guitarra e teclado formando um interessante contraponto.Na minha opinião, servirá de ótima faixa de abertura nas apresentações da banda. Serve ainda, de introdução para a música seguinte “os dois lados de dentro da mesma janela”, que num clima com progressões análogas à música feita no nordeste brasileiro traz pela primeira vez a voz doce e tranquila de Raphael Moraes cantando versos ultra-românticos a algum ser lírico, que durante toda a obra será alvo de questionamentos e apresentar-se-á mais ao expectador.Preste atenção ao clima de descontração e alegria presentes no álbum; a começar aos 2min44 desta canção. A próxima faixa, “mudança de estação” - com cara de hit radiofônico - traz um lindíssimo arranjo de violinos e novamente nas letras há uma evocação ao objeto lírico. São notáveis a linearidade das letras compostas por Raphael e o casamento perfeito com a harmonia da parte instrumental – ambas, como que numa simbiose perfeita, fazem-nos ter a sensação de que aqueles versos somente poderiam ser embalados por aquelas exatas melodias – isto não é fácil de se conseguir, pode acreditar. Estamos na terceira faixa e você deve estar perguntando-se (me) sobre os riffs e solos de guitarra arrasadores, afinal trata-se de um disco de rock n´roll, certo? Quase certo. O que há aqui são nuances sonoras, permeados por lindíssimas melodias. A técnica serve estritamente às composições, e há notadamente um grande trabalho para que todas as faixas soem o mais bonitas e intensas possíveis! Duvido que a melodia do violino tocado por Íris knopfholz não grudou no seu ouvido; vai fundo! Pode assobiar - eu já fiz isso muitas vezes desde que a escutei...
Quarta faixa: “a redenção da bicicleta” abre com lindos versos: “quando minhas mãos tocam em você / é como tocar o céu, mas com os pés no chão”. Sonho de Ícaro? Não, isso é Nuvens, literalmente! “entre sonhos e poros “tem uma linda melodia de contrabaixo na introdução. E uma imensa tristeza nos seus versos. Preste atenção ao casamento químico entre bateria e contrabaixo, juntos formam uma nuance sonora muito interessante. Não posso esquecer de comentar as palmas no final desta canção, fazem tudo entrar num clima de descontração muito acalorado e quem já a ouviu ao vivo, sabe o que estou dizendo...”tom zen“ conta com lindos acordes de violão e condução no contrabaixo, somados a interessantes melodias vocais. O que dizer das melodias circenses de César Nova, um ar arlequinal presente aqui. Já imaginou uma versão acústica? Embalaria qualquer luau praiano. Interessantes trocadilhos verbais. Um tom intimista – tão zen! Sétima faixa, e eu aqui espantado pela originalidade de cada canção, com a escolha singular de timbres das guitarras e teclados:“ritos de passagem” tem o mais belíssimo refrão, daqueles que nos dão um novo ar de esperanças. Raphael Moraes aparece com belas melodias executadas com o auxílio de um ebow, algo meio como nos efeitos hendrixianos em Are you experienced. ”pedaços de boas lembranças” abre com efeitos muito envolventes de guitarra; experimente escutar esta faixa com fones de ouvido. Um contrabaixo fretlles dá o tom macio da melodia dos vocais. Novamente os trocadilhos verbais de muito bom gosto confundem nossos sentidos. Atente para o belíssimo solo de guitarra executado por Amandio Galvão: sutil e inspirado demais. ”vida de festim” é a canção mais rockeira do álbum. Novamente Raphael surpreende logo na introdução com uma levada à la Jimi Hendrix (seria uma raríssima Fender Jag-Stang aqui? ). Raphael arrasa com muita propriedade nos versos finais... Metáforas de extremo bom gosto! E que refrão! E que viradas de bateria no final desta faixa!
E por falar em percussão de qualidade: em “jovens tragédias” o Cajon de Marcus Pereira abre a segunda faixa rockeira do álbum. O que dizer da levada pesada conduzida por Raphael?! Ainda nesta faixa, ele e Amandio impressionam em um solo de muita técnica apurada, num duelo de perguntas e respostas! E fica-nos a sensação de que os versos nos trazem à realidade urbana que nos devora com seu acinzentamento e desvalores, transformando-nos em seres melancólicos e muito idênticos em nossos viveres. Fique esperto pra não se perder em minhas divagações, vamos apurar-nos com as inversões poéticas dos versos e os slides perfeitos de Amandio em “palmas pro pecado”. Gostei muito do interlúdio antes do solo e dos backing vocals também. César Nova mostra a que veio e fecha a faixa com chave de ouro num solo inspiradíssimo. Em “vozes”, faixa em que Raphael relembra seus tempos como contrabaixista, César Nova aparece com outro solo bastante oportuno, passando o bastão para Raphael destilar um solo com bastantes inversões de intenção – lembrando os timbres de David Gilmour em seus discos solo. “cândido” fora composta em parceria com Eduardo Cirino da Poléxia, banda em que Raphael tocou contrabaixo durante um bom tempo. O que talvez tenha realmente feito com que esta faixa lembre bastante a sua antiga banda: guitarras mais nervosas, contrapontos de contrabaixo, melodias vocais com acentos mais prolongados nas sílabas finais. Letras mais econômicas (e de temática mais juvenil) no seu contexto. Em ”heróis” fica muito explícita a influência de música brasileira, algo como o Clube da Esquina e alguns discos de Milton Nascimento.Timbres muito bonitos de teclado. Uma linha de baixo bastante técnica. Um final nota dez. E ainda falta a mais instigante faixa; a que encerra: “perfume” - mudando o clima, com a voz rouca de Raphael, um clima flamenco, um ar de cabaré, baixo acústico, o piano tecnicamente perfeito de Fábio Cardoso... Perceba a beleza do refrão. A condução de bateria, os timbres dos acordes de violão, as notas longas no contrabaixo do versátil Marcos Nascimento. O formidável caos sonoro imposto pela banda aos 3min52. Deste ponto em diante, o que há é uma comunhão tão forte, um crescendo sonoro, que nos dá a impressão de que a apoteose se aproxima e eis que de todo o caos encerra-se num oportuno e mágico solo de guitarra executado por Raphael, com o auxílio de um pedal de wha-wha, fechando o álbum com algumas distorções desconexas, mas nem por isso, menos interessantes.
O que impressiona, além da qualidade sonora, é a maturidade deste grupo, tanto por suas temáticas bastante universais, quanto da desenvoltura e criatividade na execução de suas canções. Que sem cair em barbarismos técnicos ou em temas pseudo-intelectuais envolve o expectador como que num mantra sônico de paz e amor.
Impressiona ainda o fato de este ser seu álbum de estreia, sem ter havido nenhum material previamente publicado.Acredito que a banda tenha deixado muito material de qualidade de fora deste. O que nos alegra, pois é possível vislumbrar um futuro longínquo e brilhante a estes tão criativos músicos!
Vida nova e inteligente ao rock nacional! Bem-vindos às Nuvens!

http://www.myspace.com/osomdasnuvens

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=32270359

http://www.osomdasnuvens.blogspot.com/

Monday, December 24, 2007

Estrela-cruz

Inscrição para um portão de cemitério

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...”.
E a luz da estrela no fim!”

Mário Quintana



*

Sempre que olho para o céu sinto uma sensação de que tudo acima de minha cabeça não passa de alguns pontinhos de luz... E que a qualquer instante um desses foquinhos vai apagar, deixando a uns poucos avisados uma sensação de vazio imensurável dentro de peito ou até mesmo numa planilha aritmética.
Comentam da futura extinção do Sol, e nem sequer nos damos conta de que a todo instante, bem no alto de nossa cabeça – como imaginavam os gauleses – vários pontinhos de luz estão se apagando sem qualquer aviso possível aos nossos corriqueiros olhos, acostumados somente ao que é terreno, e que a cada dia parece-me até mesmo estarmos esquecendo de olhar com mais cuidado as coisas mínimas que nos rodeiam.
Hoje me dei conta dos poucos amigos os quais lembro o sobrenome... Daqueles que do tempo de infância malmente ficaram um esboço - como que num espelho de parque de diversões: medonho, distorcido, frágil.Como que num pesadelo em que as faces aparecem fantasmagóricas.
Há tempos não percebemos as estrelas, o sol - que são gigantes se comparados a nossa insignificância perante o universo. Quem dirá os sentimentos, os sentidos? Já nem bem mais conseguimos aceitar outra forma de amor que não seja físico, já não conseguimos cogitar fazer-se algo que não nos dê prazer. Já nem nos sensibilizamos com a dor.
Definitivamente não me preocuparia com os astros se estes não me servissem para abrir os olhos e ver o quanto inumano temos nos tornado. As estrelas têm o seu destino, e nós? Os astros têm o seu caminho traçado, e nós? Somos o que desejamos ser, ou somos mesmo um ser confuso, andando por um caminho que segue um único traçado circular, automático e vão?
Se esquecemos daqueles que por nós passam, o que somos se não nos deixamos tocar pelos mesmos? Se até mesmo os raios de sol participam da existência das sobras, o que fazemos nós para que haja claridade e sombra em nossa existência? O que deixaremos de nós nos objetos, seres e pessoas deste mundo? O que absorveremos delas enquanto vivos e posteriormente espíritos? Que histórias contaremos aos mais jovens? Que sentimentos passaremos à frente com uma dádiva de Deus?
E quando estas estrelas-gente que passam pela nossa vida apagarem, quanto de seu brilho ficará em nós? E quanto de nós terá ficado, quando num pequeno, ligeiro e finito estalo deixarmos no lugar de nosso brilho uma sombra, um aceno e nada mais? ...

+

Curitiba, 04 de Outubro de 2005.
(em memória de Francisca Isabel de Jesus, minha avó falecida no dia de hoje – referência de infância e distância territorial).

Monday, June 04, 2007

555-5555

Sinal sonoro indicando ausência. Após o sinal deixe seu recado.

Oi.Sou eu. Só queria dizer que estou sentindo muito a sua falta e que estou a quase nove dias sem dormir. Não tenho comido direito, e tenho bebido muito. Sei que você não vai gostar muito de saber, mas voltei a fumar, e têm sido quase dois maços por dia.

Fui trabalhar quarta-feira e comecei a chorar muito, mandaram que eu fosse procurar um médico.Sei lá, me tratar.

O médico disse-me que devo esquecer você e que se possível eu me apegasse a Deus.
Fui à igreja e o padre disse-me que devo esquecer você e, que nessas horas é muito reconfortante buscar a ajuda dos familiares.

Fui à casa de minha mãe. Ela perguntou há quantos dias eu não comia, dormia ou tomava banho. Disse-lhe que não sabia há quanto tempo não fazia estas coisas, mas que com certeza haviam parado de serem feitas simultaneamente. Ela aconselhou-me a procurar o Pedro, afinal ele era o meu melhor amigo e já tinha passado pela mesma situação antes.
Fui à casa de Pedro. Ele continua o mesmo: bebendo e fumando como um louco, mas é boa gente e tem um carinho imenso por mim – o Pedro é o irmão que não tive. Pedro disse que nem se lembrava mais da outra. Já fazia dois anos, mas ainda dava para perceber que ele olhava com dor para aquele espaço vazio que havia ficado em sua vida. Aconselhou-me a tentar lembrar como eu era antes de tê-la conhecido.

Lembrar-me de como eu era antes de ter-lhe conhecido não era uma das tarefas mais fáceis. Antes de você, se bem me lembro, eu procurava por alguém exatamente como você era e, agora que você se foi, só fico a procurar, em vão pelas ruas, por alguém que seja exatamente como você exatamente era.

Não sou mais senhor de minhas faculdades mentais. Não consigo ver televisão, ouvir música, andar por aí sem que pense em outra coisa a não ser em você. Meu estado inspiraria cuidados sérios, mas para que, ou para quem eu haveria de me cuidar se não há mais esperança em mim de que você irá voltar? Chego até a pensar que se você voltasse, nada mais seria como era antigamente. Eu já não seria mais o mesmo – infelizmente não posso vender-te a demagogia de que eu melhorei, mudei ou coisa assim. Estou a cada dia pior como você poderia ver se aqui estivesse, ou como você poderia constatar pelo meu tom de voz nesta ligação, se a fita da sua secretaria eletrônica, assim como o nosso amor, não tivesse acabado, logo que comecei a dizer o quanto eu te amava.

Monday, April 30, 2007

Anúncio publicado nas nuvens

A quem interessar possa
Estou em cartaz
mas não há cartas endereçadas
a mim
há correios
e cachorros a correr aos carteiros
todavia minha canela seca passa desapercebida
à mandíbula feroz do Cão
ao destino incerto de um sucesso
ao aplauso, passa minha face pálida;
o meu nome escrito errado nos lugares
não reflete minha passagem pelo mundo/
a quem interessar possa
estou vendendo meus 15 minutos de privacidade

Friday, April 27, 2007

Saiu-me à Rubem Fonseca

À Ponte dos padres
Ou A tragédia curitibana de todos os dias



Sai bela, linda, cheirosa e distraída.
Pára o Opala verde, abre a porta, um trinta e dois aponta para ela.
Ele: - Entra, Fiá da Puta!
Ela: - O quê?! AAHHHhhhhh!
Seguem-se cantadas de pneu.
Ele: - Corre, véio! Pisa nessa bosta!
Outro: - Tá bom! Tá bom!
Gente olhando. Furam um sinal. Batem num Scenic.
Ele: - Pronto! Fodeu tudo! Agora essa bosta vai chamar os gambé!
Outro (abrindo a porta com arma em punho): - Vai nada! Quer ver?
Scenic: - Seu barbeiro! Olha aí, vai pagar e...
Tiro. Corpo estendido.
Outro (que volta sorrindo): - Resolvido!
Nova cantada de pneus. Param ao lado de um telefone publico.
Outro (apontando novamente arma):- Se discar 190 te faço um buraco na cachola, pau-no-cu!
Pedestre engole seco o palavrão. Deixa cair o fone.
Nova arrancada. Rumam pro Jardim das Américas.
Ela: - Quem é você? O que quer de mim? Me deixa ir!
Ele: - Cala essa boca!
Outro: - Segura essa vagabunda!
Ela, choro histérico.
Ele, gargalhada histérica.
Outro: - Ô, caralho! Qual caminho?
Ele; - Pega a 277, porra!
Ela (observando os dois: máscara de meia na cara. Roupa preta. Vozes dissimuladas): - Quem são vocês? Ai, eu vou morrer!
Seguem meia-hora.
Ele (cutucando-a com o 32): - Acorda, vagabunda!
Outro: - Deixa, assim ela cala a boca.
Ele: - Mas não é pra dormir, não! Se dormir, acorda morta! Ouviu bem? Morta!
Ela, choro histérico.
Outro: - Ai, meu Deus!
Ele:- Não fala em Deus agora, que é pecado!
Outro (escolhe uma fita e coloca no rádio): - Miles Davis é do caralho!
Ele: - È. Mas era crioulo!
Outro: - Que se foda que era crioulo! Tocava pra caralho!
Ela (sussurrando): - Ave Maria cheia de graça...
Ele: - Não reza, que é pior!
Outro: - Deixe ela!
Ele: - Deixa ela?! Esqueceu o que ela fez?
Outro, mudo, concorda com um aceno de cabeça.
Andam mais uma hora.
Ele: - Pára ali, que eu quero mijar.
Outro, se encosta na lataria e fica olhando o céu.
Ela: - Também quero!
Ele (volta e dá uma coronhada na testa dela, abrindo uma ferida vermelha): - A próxima é na boca!
Ela desmaia.
Seguem mais um pouco.
Ela (acorda grogue): - Onde que eu tô?
Surge um rosto familiar em meio a sua vista confusa.
Rosto: - Oi, amor! Que bom que você está bem! Pensei que você tinha morrido! Me assustei com esse seu machucado na sua testa...
Ela: - Você! Você! VOCÊ!
Rosto: - Sim, sou eu, amor!
Ela: - Você! Foi você!
Rosto: - Não!
Surge um outro rosto do mato.
Outro rosto: - Foi o quê?
Ela (gritando): - Vocês! Vocês que fizeram isso comigo!
Outro rosto: - Tá vendo!Eu falei que iria dar cagada!
Ele: Oh, amor! Calma! Gostou da brincadeira?
Ela: - Brincadeira? Ele matou e...
Ele:- (mentindo) Era festim, amor!
Ela (acalmando-se): Por quê tudo isso?
Ele (rindo): - Loucura de amor!
Outro: - Surpresa!
Ela (levantando-se): - Que lugar é esse?
Ele: - Não tá reconhecendo? Primeiro beijo te diz alguma coisa?
Ela: - Ponte dos Padres?! Eu não acredito!
Ele: - Pois é, pra relembrar os velhos tempos!
Outro (máquina fotográfica em punho): - Vamos lá pombinhos, que tal registrar o momento?
Caminham ao pára-peito da ponte.
Ela: - Nossa! Tinha esquecido como é alto!
Ele: - Pois é.
Outro: - Digam American Express!
Ela: - O quê?!
Um empurrão. Um corpo que cai.
Ele (observando): - Nem bóia essa bosta! Olha lá, já afundou! Que merda!
Outro: - Tchau, lazarenta! Vá gastar o cartão de crédito do diabo!
Riem histéricos.
Nova cantada de pneus.

Wednesday, April 25, 2007

Confraria das putas

Assume o seu acento a anciã. Ela, dentre todas as presentes, é a que alcança estado mais debilitado: varizes, pelancas, peruca numa já calva cabeça, dentadura, joanete... Não mais causa enfarto aos amantes.
Pede silêncio às mais moças. Espera que a última repouse sua derriere ao acento.
Eis a inauguração de mais uma sessão solene da irmandade. A pauta versa sobre variados assuntos, na sua grande maioria problemas decorrentes da profissão.
- Não é possível, colegas! Não consigo mais comprar meias de seda a preços justos!
- E eu que já não encontro mais aquele batom vermelho sangue!
- Os espartilhos já não me cabem! Preciso mandar fazer!
- E os cigarros! E as bolsinhas! Nem no Largo encontro mais bolsinhas bonitinhas!
- Meu cafetão batia-me todos os dias e agora já não quer mais!
- E a Gazeta?! Não aceita mais os meus pseudônimos!
- Nem os comuns? Nicole, Shirley, Sabrina, Bianca?
- Nem os de santas! Maria já é manjado!
- E pipocam os anúncios procurando moças para acompanhar executivos!
- Como se acompanhar operário fosse atividade de alto nível!
E eclodem lamentos de todos os tipos.
Como é de se esperar, a anciã chama-se Joana e, é na sua casa que ocorre a sabatina. E como aqui ninguém se entende, faz se clara a expressão: casa da mãe...
- Calem a boca! Esbraveja Joana.
Todas se calam.Exceto uma, que por despeito assim sempre procede. As outras não. São por deveras educadas. Aquela é censurada a tapas. Chora, mas gosta.
Joana assume a palavra:
- O problema, minhas filhas, não é a falta de mantimentos ou os maus tratos da classe. O real e imediato impasse é de que há mais de ano nenhuma das presentes aqui atende um cliente!
Todas se entreolham tristes. Algumas choram baixinho. Joana continua:
- E tudo por causa de quê? De quem? Sim! A Culpa é das menininhas de família!
Surgem gritos de crucifica. Joana prossegue.
- Tenho constatado, o depravamento começa às noites de sextas-feiras. Dizem ir ao cinema – e realmente vão. Mas é na volta que o carro do papai do namorado transforma-se em leito fornicador...
Todas gritam:
- Vagabundas!
E os casados, queridas? Estes estão indo aos parques, às academias... Dia desses presenciei um que levou duas adolescentes pro Barigüi e babau! Nem os casados, devido à essa facilidade, vêm nos procurar. E acredito que nenhuma de nós venda-se por um Chicabom de morango.
Murmúrios. Cochichos. Uma pergunta se por dois pode, afinal é o preferido dela e tal...
Joana golpeia fortemente a mesa à sua frente. Pede ordem. Ali não é a casa delas. É a dela.
Surgem ameaças: queimar os cinemas, poluir os parques, pedir que o prefeito crie uma lei a fim de que as moças de família não saiam com o namorado sem a companhia do irmão menor, instituir missa obrigatória aos sábados à noite, fechar os motéis rotativos...
Joana diz que as idéias são boas, mas que na verdade precisam de uma estratégia de marketing, pois o mercado está competitivo. Diz que vai tentar conversar com um roteirista de televisão para surgir uma novela ambientada numa zona.
- Zona?!
Grita uma solitária voz masculina à porta.
- É aqui que é a zona? Lá de onde eu venho não tem dessas coisas não!
Todas gritam histéricas. Menos Joana, que ao chão, leva a mão ao peito.
Uma das companheiras corre ao seu socorro:
- Quer que chame um médico, Mãe Joana?
- Larga de ser besta, minha filha! Arruma as malas! Não é enfarto, é emoção!
Assim, dá-se por encerrada a sessão. Fecha-se a ata.
Abrem-se as portas.E outras coisas impronunciáveis ao horário.

Interblogs

A idéia partiu da minha amiga-irmã na terra Karina Quadrado, então ela que é mais dada aos detalhes pode explicar melhor o conceito que permeia essa intertextualidade a que nos estamos propondo iniciar com os contos S.A.B e S.A.B II (um requien). Espero poder colher bons frutos dessa parceria e que quem possa nos vir a ler sinta também vontade de opinar e se possível escrever e interblogar conosco.
O link pra entender o que se passa na cabeça da Karina é: http://kaquadrado.blogspot.com/ e pra entender a minha vais ficando por aqui mesmo!
Um grande abraço!